4. ECONOMIA 22.8.12

O DIA A DIA DE UMA RECESSO

Os espanhis se ajustam  realidade de cinco anos de declnio econmico cortando despesas e substituindo os bares pelas ruas.
MARCELO SAKATE, DE MADRI

     Em uma noite abafada de vero, a Praa Puerta de Moros, no bairro La Latina, em Madri, est tomada por grupos de amigos. Com latinhas de cerveja e pacotes de batatas fritas nas mos, eles cultivam o hbito espanhol do botelln. A crise econmica mais grave em dcadas, no entanto, fez do hbito social de encontrar os colegas na rua a principal forma de entretenimento dos jovens espanhis. No me lembro da ltima vez em que nos vimos em um bar. Para economizar, s nos encontramos nas praas, conta a atriz Laura Gonzlez, 34 anos, ao lado de quatro amigos.  um padro de comportamento que se alastra. Oito em cada dez espanhis dizem ter mudado seus hbitos de consumo por causa da recesso e do aumento do desemprego, que atinge um em cada quatro trabalhadores. A rotineira ida ao supermercado  outro exemplo. As marcas prprias das redes ganharam apelo graas aos preos baixos, em detrimento de mercadorias de fabricantes tradicionais. J representam quase a metade da cesta de compras.  um comportamento similar ao dos brasileiros no passado, em tempos de colapso econmico. Produtos de valor mais elevado, cujas vendas dependem da confiana dos consumidores no futuro do pas, sofrem mais. No ano passado, foram vendidos na Espanha 787.000 carros novos, a metade da quantidade de 2006.
     A economia espanhola encolhe h nove meses. Nmeros divulgados na semana passada mostram que boa parte das maiores potncias europeias voltou a entrar em recesso, ao acumular dois trimestres consecutivos de queda na atividade. O PIB da Espanha dever encerrar este ano com o mesmo tamanho que tinha em 2007  ou seja, ter acumulado meia dcada perdida. Na construo civil, o setor que mais cresceu nos anos dourados do pas, o nmero de trabalhadores retomou ao patamar de 1998. As lojas, os bares e os restaurantes sobrevivem em grande medida graas aos turistas estrangeiros (o pas  o quarto destino mais visitado do mundo). A mudana de hbitos dos espanhis reflete a queda na renda da populao. O gasto mdio total por domiclio caiu 14% entre 2007 e 2010, de 25.400 euros para 21.800 euros ao ano. As despesas diminuram em dez das doze categorias de consumo (apenas educao e moradia foram poupadas). O movimento em bares, restaurantes e hotis foi reduzido em 23%, e 12.000 estabelecimentos fecharam as portas em trs anos. Relata o catalo Ignacio Sala, diretor da agncia de turismo e entretenimento on-line Atrpalo: Os espanhis viajam cada vez menos e escolhem destinos prximos. As viagens internacionais caram 15% no ltimo ano, enquanto o turismo domstico cresceu 6%, segundo dados oficiais. Em compensao, subiu a procura pelo lazer urbano, como spas e espetculos, diz ele.
     No que as atividades culturais estejam inclumes. Ao contrrio, entraram no pacote de ajustes das contas pblicas. Para cinemas e teatros, o principal tributo espanhol, o imposto sobre valor agregado (IVA), subiu de 8% para 21%. O fundo pblico que financia as produes cinematogrficas teve reduo de 35% na sua verba. No instituto de apoio s artes cnicas e  msica, o corte  de 17%. O anncio causou revolta entre os artistas.  uma punhalada na cultura, disse o ator Javier Bardem, que participou de um protesto em Madri em julho.
     As manifestaes populares j se incorporaram  rotina das cidades, com adeso macia do funcionalismo. Inicialmente imunes  crise, graas  estabilidade no emprego e aos rendimentos intactos, os servidores pblicos se tornaram o alvo das medidas de austeridade do novo governo, do conservador Mariano Rajoy. O objetivo  restabelecer as condies para que o pas volte a ser competitivo (o dficit nas contas pblicas foi de 8,5% do PIB em 2011, o terceiro maior entre as 27 economias da Unio Europeia). O governo suspendeu o salrio de Natal, um dos dois pagamentos extras que os funcionrios recebiam, e reduziu o nmero de folgas e o valor do seguro-desemprego. Ao atingir o funcionalismo, Rajoy amplificou o sentimento de que a crise, desta vez,  para todos.
     Em um outro efeito da derrocada na economia, em 2011, pela primeira vez em 25 anos, a populao espanhola diminuiu de tamanho. Mais de 500.000 pessoas, na maior parte estrangeiras, saram do pas, superando a entrada de 460.000. O saldo negativo  gritante para um pas que se habituou a ser um receptor de estrangeiros nas ltimas dcadas. Agora so os jovens espanhis que pensam em buscar uma sorte melhor no exterior. Marina Lled, 22 anos, concilia as sesses de piano e os ensaios de canto e de teatro com a jornada de meio perodo em uma loja de instrumentos musicais, enquanto faz planos para morar em So Paulo no prximo ano. Seu pai viveu no Brasil por mais de vinte anos. Ela conta que a crise foi o empurro necessrio para transformar em deciso o que era apenas uma ideia. Afirma Marina, resignada: Acho que terei um futuro mais promissor, com mais oportunidades de trabalho. Os jovens, como ela, so os mais atingidos pela crise. Metade deles est fora do mercado de trabalho e sobrevive com bicos e a ajuda dos pais. To cedo os bares espanhis no voltaro a lotar.

JUVENTUDE NA RUA - Frequentar bares e restaurantes, s em ocasies especiais. Para Laura Gonzlez e Joaquin Rodrgues, o botelln, tradicional costume espanhol de se reunir com os amigos nas ruas para conversar e beber, popular entre os mais jovens, tornou-se o principal entretenimento. Outro ponto de encontro cada vez mais frequente  a casa dos amigos. Em tempo de crise severa, a ordem  economizar. Ningum que eu conhea acha que a crise vai acabar em pouco tempo. Na verdade, a nica certeza  que o pior ainda est por vir, diz Joaquin, 39 anos, tcnico de som, ao lado de seus amigos no bomio bairro La Latina, em Madri.

FUTURO NO BRASIL - Recm-formada em artes dramticas, Marina Lled, 22 anos, planeja viver seus prximos anos fora da Espanha. Muitos dos meus amigos j se mudaram para outros pases. Ela trabalha meio perodo em uma loja de instrumentos musicais e guarda dinheiro para se mudar no ano que vem para So Paulo, onde pretende fazer carreira como cantora e pianista. Conta com as dicas de seu pai, um msico espanhol que viveu no Brasil nos anos 70 e 80. Meus pais me apoiam porque sabem que, alm da experincia de vida no exterior, terei mais oportunidades profissionais.

MUDANA DE HBITOS - o empresrio catalo Ignacio Sala precisou se adaptar para crescer. Scio de uma agncia on-line de turismo e entretenimento, a Atrpalo, ele conta que os espanhis substituram as viagens internacionais por pacotes domsticos, e estes, pelos programas de lazer urbano, como teatro e shows de msica. Alm disso, Sala diz que os espanhis passaram a deixar a compra para a ltima hora, com a esperana de que consigam um emprego ou de que a situao econmica melhore. Antes, as reservas para as frias de agosto, no vero europeu, eram feitas em maio ou, no mximo, em junho.

A EUROPA EM RECESSO
Variao do PIB em 2012 em relao ao mesmo trimestre do ano anterior

ALEMANHA
1 trimestre: +1,2%
2 trimestre: +1,0%

FRANA 
1 trimestre: +0,3%
2 trimestre: +0,3%

INGLATERRA 
1 trimestre: -0,2%
2 trimestre: -0,8%

ESPANHA
1 trimestre: -0,4%
2 trimestre: -1,0%

ITLIA 
1 trimestre: -1,4%
2 trimestre: -2,5%

PORTUGAL
1 trimestre: -2,3%
2 trimestre: -3,3%

GRCIA 
1 trimestre: -6,5%
2 trimestre: -6,2%

ZONA DO EURO 
1 trimestre: 0
2 trimestre: -0,4%

UNIO EUROPEIA
1 trimestre: +0,1%
2 trimestre: -0,2%

